terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O poeta

Um poeta deve ter dor
E dor onde ninguém saiba.
E deve sentir todas as dores e todos os amores que há no mundo.
Deve ter a escuridão, e deixar explodir todas as estrelas. Deve fazer nascer luz.
Deve entender de partos.
Um poeta tem que conhecer perfumes e odores.
Deve descrever sobre a Dolores e amar as suas dores.
Um poeta tem que ser forte e ardente.
Frágil e quente.
Um poeta tem que agir com a verdade, mesmo que para isso, use o fingimento.
Deve ser nobre como a beleza e plebeu como a tristeza.
Tem que usar das lágrimas para mostrar a alma.
E usar do sorriso para mostrar o destino.
Um poeta tem que salvar vidas, através da sua elegia ou da sua pornografia.
Tem que adorar o nada e o tudo.
Deve ser o próprio silêncio e ter em si todas as palavras.
Um poeta deve cortar os pulsos com flores e sobreviver com pedras.
Tem que andar no ritmo das correntezas dos rios e se escaldar nas areias como as ondas.
Deve saber observar o belo e entender o torpe.
Um poeta deve ver além do verde e do azul, tem que ver o cinza que há por trás de tudo.
Deve enxergar com as mãos e o coração e sentir com os olhos e abraçar com a alma.
Um poeta deve ter em si a eternidade e jamais ostentá-la.
Deve acariciar e bater com as suas palavras.
E deve ferir com o seu silêncio.
Um poeta deve saber chorar compulsivamente ao ver o sonho do outro quebrado, e gritar silenciosamente quando o seu sonho for derrubado.
Tem que transbordar os olhos de lágrimas, todos os dias, ao ler um poema, e alegrar-se profundamente ao nascer de qualquer semente.
Um poeta deve ferir-se com a insensibilidade e vangloriar-se com as raridades sensíveis.
Deve sentir os antepassados nos bosques e praças, e respeitar os seus espíritos.
Um poeta deve ver o sol nascer e nesse momento matar sua soberba.
Deve ver o sol se pôr e aguar o orgulho de si mesmo.
Um poeta tem que olhar nos olhos. Olhar simplesmente nos olhos; nem mais para baixo, nem mais para cima.
Deve proteger os apaixonados, mesmo aqueles enganados.
Um poeta tem que admirar os rituais e jamais julgá-lo.
Não precisa dançar o compasso da vida, mas deve entendê-lo.
Um poeta tem que saber que, as crianças e os velhos sabem mais que as suas rimas.
Deve gargalhar dos ecos.
Esbravejar das injustiças.
Um poeta tem que ser divinamente humano.
Compreender o divino, sentindo o humano.
Um poeta deve saber que não sabe. E ter consciência que entende.
Deve ser louco para que os deuses o proteja.
E deve ser lúcido para que o Deus o respeite.
Deve ter brilho no olhar e uma cor opaca nos lábios.
Dedos das mãos alongados e pés firmes.
E o poeta deve esquecer todas essas regras e ser simplesmente poeta.

Daniella Paula

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Cóleras pungentes no fim de um amor carmim

Sinto pela ausência... Saudade dos fragmentados e dos fragmentos desse "pequenino" universo.

Eis aqui, um fragmento de um fim. Espero que sintam...

Eu sabia. Sempre soube do fato insano que era te perder. Arrisquei, paguei o preço e vi. Vi você saindo de mim, como as ondas saem do mar para se escaldar na areia.
Você foi abrindo devagar a porta, para que eu não percebesse que estava sendo aniquilada, até que abriu tudo, deixou-a escancarada e saiu correndo para que não desse tempo de te puxar pelos braços.
Eu fiquei aqui, nesse quarto vermelho carmim, que você quis colorir enquanto brincava de fazer amor em mim.
Vivemos aquela batalha do amor, que ora nos aconchega em Glória e ora nos bombardeia em dores.
O que eu acho nefasto é o fato de você fingir até os últimos momentos de olhares entrelaçados, uma paixão. Poderia ter pedido perdão e saído ilesa das cinzas que ainda queimam, devidamente, pelas brasas de outrora.
Você disse que o amor chegou ao fim. Na verdade, o fim se desaguou em amor; o seu fim, no meu amor. Mas, eu sempre soube que seria assim. O que acontece é que a vida humana quer sempre o prolixo, mesmo diante da sua mais devasta lacuna.
Neste momento eu fumo cigarros de cóleras e bebo gim de mágoas. É a dor latente de quem não consegue controlar a mente, quando esta, demente, se desnorteia em busca de um passado, desejando obstinadamente, que ele venha ao presente. Bobagens de gente!
Olho para a fotografia em preto em branco, na moldura feita por você, que dizia ser o retrato mais pitoresco de amor. Dentes expostos na imagem, olhares cúmplices e horizontes de sonhos. Como seria a nossa fotografia de agora?
Sangue ordinário espalhado pelos cantos dolorosos de nossos olhos.
Não quero que volte, mesmo amando-te loucamente (l-o-u-c-a-m-e-n-t-e), prefiro que vá sobrepor seus órgãos quentes sobre os corpos que te ardam, que fique aqui, remoendo e fingindo caminhos para uma paixão falida.
Deixe-me no meu ermo desse quarto a luz néon, logo passará essa revelação anômala de dores em partes que eu nem imaginava que existia.
É fato que o seu ato, me cortará a alma por longos dias, se acaso suportar o ocioso desejo de desprendimento da vida; mas, assim que perpassar a penosa aflição do espírito que foi esfaqueado pelo o abandono, e do corpo rejeitado pelo o calor de outro corpo, a existência me voltará a ser chiste. E quem sabe me dê um outro amor e feche a porta.
Enquanto isso, eu vejo a gaivota, sobrevoando livre na sua condição de não amar. O amor prende e a solidão e a falta nos rende.
Esperarei passar essas horas que ainda se sente o perfume, a presença, a esquivança na retina da esperança, o estar não sóbrio para recuperar-se. Até a vida vir e me der um outro amor carmim. Talvez para me ferir, vale se for para me fazer existir.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

"Amo-te"

Amo-te a cada batida das ondas nas areias
Amo-te em cada novo orvalho pela manhã
Amo-te em todas as fases da lua
E toda lua sem fase.
Amo-te no poço escuro d’minha alma
Assim como te amo em cada brilhar dos meus olhos
Amo-te nas coisas lindas que tenho pra falar
Amo-te nas horas vazias que não há o que citar
Eu te amo no inevitável dos sentimentos
Nas faltas de razões
E nas súbitas emoções
Amo-te quando te tenho em meus braços
Amo-te quando estás distante dos meus olhos
Eu te amo em todos descolares dos cílios
E em todos os colorares de conchas
Na falta de palavras
No oco do silêncio
No talambor do seu coração
Nos trágicos e frágeis momentos.
Amo-te no lilás das nossas violetas
Amo-te nas cinzas das nossas imperfeitas...
Imperfeitas conjecturas do amor.
Amo-te quando os pássaros levantam vôo
E quando as borboletas saem do casulo.
Amo-te no seu ovário, nas suas pernas, nos seus seios, no seu óvulo...
Nas suas coisas de mulher.
Amo-te porque te faltam coisas de mulher
Amo-te porque tu amas a mulher.
E eu mais te amo, porque sou essa a sua coisa que te falta.
E se pecamos porque nos amamos que não haja explicação para esse amor sem tamanho.


Daniella Paula

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A Separação

Não, não precisa me enganar,
Inventar essas coisas banais, sem vida, sem anais,
Para consolar o meu peito sem leito.
Pode retirar suas palavras do meu ouvido
Quebrar o mundo fingido.
Pode limpar com navalha o seu perfume dos meus poros.
Pode apagar sua imagem dos meus olhos.
Vá, corra para não perder o trem que a levará para os raios de sol, após tanto tempo vendo a lua. Mas, pegue seu cachecol, para onde vai, não poderá andar nua.
Não se esqueça de pegar seus cálculos e devolver meus autos.
Pode ficar com o “Auto da barca do inferno”, Gil Vicente lhe mostrará o inverno.
Deixe o “Auto da Compadecida”, Suassuna entende a minha vida.
Leve seus discos de Nirvana.
Devolva os meus da Bethânia.
Você precisará da sua auto-ajuda,
Eu quero só o Neruda.
Leve os cálices de cristais, isso é o de menos.
Eu só preciso dos vinhos chilenos.
Fume longe desses quartos os seus cigarros,
Que eu juro, que esquecerei os seus pigarros.
Retire todos os seus pêlos do meu corpo.
E todas as lembranças da retina das minhas esperanças.
Não precisa mais esperar,
Abandone aqui quem só te fez adorar.
Não vou te segurar.
Vá, e se afogue no mar,
Que você construiu, enquanto fingia me amar.

Daniella Paula

Escultura: Rodin - " O fugitivo do amor"

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

As horas


Ela não pôde suportar as horas.
As horas que se sucedam como correntezas de um rio infinito.
Ela queria ser finita. Não existia nela a ostentação de ser eterna.
Ela queria somente que as horas acabassem.
Que o fluxo chegasse ao fim.
Que os respirares se calassem, porque eles são gritos que ensurdecem.
Não haveria como mais suportar a contagem progressiva dos segundos natos, imbecis, fiéis como um cão ao tempo, tortuosos àqueles que não suportavam mais o seu barulho, o seu sopro de vida, a sua obrigação de existir.
Ela queria que a cachoeira cessasse que o rio secasse que o mar inundasse a areia que já estava cansada de apanhar das ondas.
Para quê tanto tempo? Para quê tantas horas?
Os seus olhos só desejavam se encontrar com a impetuosidade dos ventos e a finitude das tempestades.
Não era mais necessário o pulsar desenfreado do coração. Esse órgão obrigatório para o fluxo insano da vida. Ela só queria deixar de ir contra a ela, para deixar de ter o choque que causa a existência, até daqueles pobres viventes que já não a quer. Que vivem a vagar pelas cinzas das horas, pelo o pó das carnes, pela loucura das palpitações. Por que há de nos manter vivos?
Ela só queria ir a favor da vida, que pede para morrer.
Era tudo que desejava!
Como o pulsar do estacon, dentro de epifania.
Ela desejava regredir.
Desejava que os ponteiros batessem ao contrário. Que os olhos fechassem para a paz, mesmo inventada.
Ela só queria romper a linha obrigatória do tempo, cessar o pulsar, calar-se a alma.
Era tudo o que ela desejava.
Decodificar o tempo, estraçalhar a lógica, quebrar os cacos, anestesiar a dor.
Por que existe alguém sempre nos soprano? Ela se indagava, pois só queria não mais ir contra o vento.
Deitar e avistar a esperança, longe da esquivança da existência humana.
Enveredar o seu barco para outros mares.
Esquecer o devir que nunca vem.
Calar as vozes que a mantém.
Ela só queria fechar os olhos, até o escuro ficar tão escuro e sangrar, para coexistir o vermelho.
Ela só queria cessar...



Daniella Paula

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Quando não sei o que sou...

Sou um buraco no plano
O pensamento fora do dono
A virgindade distante da moça
A pérola fora da ostra
Os desarranjos da natureza
A lagarta da borboleta
A fome dos desnutridos
O sangue dos vencidos
A ferida dos curandeiros
A dor de alma dos poetas
O órgão dos sentidos
A alegria dos desvalidos
O desafinar dos cantos dos pássaros
Os estardalhaços da alma
A vida dos fantasmas
A morte dos orgulhosos
Sou o que morre todos os dias, e renasce no despertar das flores.

Daniella Paula

domingo, 21 de setembro de 2008

Noite de desejo, retrato de uma denúncia

A noite estava escassa. Clamei-a e de repente ela surge nua.
Nua de corpo e alma, áurea limpa e pureza findam.
Com alguns colares no pescoço, cabelos soltos.
Olhar do avesso.
Ela surgiu para se entregar.
Somos dois mistérios. E dele queremos desfrutar.
Ela se insinuou, tocou os lábios, lambeu os dedos.
Sensibilidade aflorada...
Lua, tão feminina, querendo fazer amor com uma estrela, pois já não quer ser sozinha, quer alguém para chamar de minha.
Rasgou a saia, deixou-me tonta;
Quebrou as rédeas, aqui não conta.
Puxou meus cabelos.
Esfregou os seus.
Sussurrou as loucuras cálidas, das viúvas estagnadas, dos segredos das donas de casa, das brincadeiras enluaradas.
Mordeu o meu pescoço, percorreu o meu corpo.
Voltou para minha boca...
Molhou os seus lábios, fixou-se em meus olhos... Rendeu-se aos olhos.
Beijou-me o beijo suave, da boca fina, da pele sensível, da língua afiada.
Tocou os meus seios, fez deles esteios.
Brincou com meu umbigo.
Descobriu o meu intimo.
Lambeu as minhas pernas,
Desvendou o que tinha no meio delas.
Tão conhecido e tão desconhecido... Infinito!
Possuiu-me toda.
Entrou-se outra.
Bebeu do meu líquido. Deixou o seu em mim.
Entranhou as unhas nos meus poros.
Escorreu o seu suor tacanho.
Esbravejou seu gemido.
Cantou no meu ouvido...
Todo o seu desejo reprimido
Que ali foi proferido,
Diante ao mistério que não foi entendido.
Ela crua me abraçou. Depois chorou.
Voltaria para o seu marido.
Seu mundo fingido.
Longe dos seus delírios temidos.
Acabou-se o amor urgente
Que tanta gente, mente;
Que não sente.

Daniella Paula

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Um [triz] de mim

Eu moro no pélago do mar
Tenho o lamento da ressaca dos mares
Vivo em confronto com os olhares, olhares perdidos diante do oceano.
Entro nos meus escombros, encontro-me com meus sonhos, que foram perdidos durante a viagem.
Invado as minhas lacunas e encontro os amores de outrora, prontos para florirem outros outonos. Flores murchas de outono...
Sopro os meus cabelos. Provoco os ventos.
Rodo a minha saia, viro capitu entocada.
Passeio no tempo, faço cinzas das horas.
Colho as sementes que não viraram frutos.
Recolho os estilhaços de pólvora das paixões frustradas.
Não tenho medo dos grandes raios, já que sou uma luz que cega.
Ouso amar tudo que me escapa.
Solto tudo que me prende.
Amo a liberdade como uma serpente, não como um pássaro; eles voam por não saber andar. Serpente ninguém doma, por não saber domar.
Na vida não tenho a pretensão de ensinar. Siga meus exemplos, somente os loucos que não têm medo de amar, nem do mar, nem do ar, nem de ser, nem de estar. Fujam de mim, todos os sensatos, os sociais, os imorais... Pouco me importa quem vá e quem ficará.
Nesse meu mar profundo, só há espaço para criar. Quer-se ser intocável, procure um rio para nadar.
Fuja para longe de mim, aqueles que têm medo de devorar.
Fique aqueles, cujo nome é amar e o sobrenome [do] ar.

Daniella Paula